uma canção para o ano que ficou

Tenho aqui alguns álbuns de 2015 pros quais senti vontade de traçar comentários. A intenção inicial era postar a lista no último dia do ano e tentar gerar um tantinho que fosse de interação. Como ultrapassei o prazo, a postagem fica pelo meu orgulho mesmo. Se for útil pra alguém, ótimo. Ah, a ordem e mesmo a escolha dos álbuns são um tanto irrelevantes. Se fosse para colocar realmente os meus “preferidos”, as escolhas mudariam – acontece que, ou eu não senti vontade de escrever sobre eles, ou senti que não tinha algo relevante a dizer.

à lista

Sandtimer - Vaporwave Is Dead - cover

Sandtimer – Vaporwave Is Dead

Desde que surgiu na internet por volta de 2010, o vaporwave foi espantosamente consumido e aderido. E embora sua proposta estética seja interessante, os artistas em si, não sei se por preguiça ou por não terem real consciência do que faz esse movimento ser pertinente (não é usar a voz do google translation e batidinhas já genéricas), estão soando extremamente descartáveis. Por esse motivo, Sandtimer foi uma surpresa agradável na minha playlist. O álbum vem como uma de espécie narrativa que tenta traçar a própria trajetória do vaporwave e a forma como ele reflete o ser humano. Ao longo do álbum, na realidade, eu tenho a impressão de que o vaporwave se apresenta de duas formas: primeiro, como um paciente num divã; em seguida, como um defunto numa autópsia – e nos dois casos, ele é um corpo diante da Verdade, do Criador, de Deus, e à mercê da sua (e da nossa) análise. Public Service Announcement, remontando sonoramente o cenário de uma guerra (ou melhor, uma intervenção militar) e anunciando repetidamente “Vaporwave must die”, é a faixa que faz a intermediação desses dois momentos. Não vou ficar me detendo em faixas específicas, porque é na autonomia da descoberta do ouvinte que parece residir a maior força desse trabalho. Por fim, é interessante perceber que nesse movimento de colocar o vaporwave sob o nosso olhar e decompô-lo com a intenção de compreender sua completude, o desfecho do álbum parece tentar destacar seu caráter incapturável (caráter que toda forma artística moderna deve assumir). No caso do vaporwave, recriando infinitamente articulações de imagens do passado e do presente nos seus projetos de um futuro apocalíptico, de destruição da vida, num mundo onde não há lugar para a esperança.

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Vai lá socar um título epiléptico, vai

Esse texto foi escrito num turbilhão de inspirações poéticas e surreais, está infestado de citações musicais e literárias, algumas nem tão explícitas, além de ter pensamentos intrinsecamente fincados em relações com pessoas especiais para mim. O título, esse troço estranho, foi uma sacada que me veio abruptamente à mente logo depois de dar os últimos retoques no conto-poema-monstruosidade em si.

Mas tu, ache o que quiser.

Soca um título epiléptico aqui

Escrevo por pretensão. A de preencher o vazio da brancura sem fim desta página. Esse vazio que me faz retorcer em agonia, imperativando em mim a necessidade de teclar, de manchar, de sujar. Encher de sentido o inexistente, arrefecer a não-morte que sim ¿sim? só existe a partir da sim-vida. Entupi o inorgânico com a bio, então, estúpido, sai Apuleio, a alma supra-aristotélica do Corifeu que proclama, alarde!, os mandamentos do messias Rimbaud, emoldurado pelo bramido sacro dos eunucos surdo-mudo-cegos que batem à minha porta. Mas palpito o coração, minha mão destra começa a definhar, as unhas secam e supuram em pus. Meu sangue pulsa permeando as artérias de todos os planetas, saturno, netuno, os astros, a galáxia mártir, lua, sol, o buraco negro até ao inferno e aléns. Oxalá, a trindade carnal Nando-Reis-Caeiro tira-me a sanidade com dardos vomitando metafísicas sulfurantes, Louvai! Naqueles nãoos-lugares inominados grito por queimaduras, o suor descendo em cascata interminável sobre minha sobrancelha lembram-me num átimo a garganta do diabo que um dia visitei, mortífice, naquela internidade da vida. Quando? no tempo o vazio rasssteja. Jorge, sempre Amado, bolina -deussalino- meu sexo em ereção. A tesão tenciona, orgasmo ao paraíso. Sou a fênix que retorna das cinzas. Estrangeiro, talvez alienígena de nariz adunco. É o sarausilencio de Kafka num beijo embriagado em Lautréamont taraprostituto. Entorpecência, Reminiscência, Degenerecência. O grito sofrível lançou longe o lápis. Esse era eu. -…- eu? Tenho o mundo parado num estático acaso. No papel escrito não encontro as respostas. Mudérnage di menos, exclama a norma minha mãe. Concluo porque quero, mas ¿não? não tenho a vontade. Essa página solitária era mais satisfatória enquanto branca do que agora preenchida com meus incompreensíveis rabiscos negros entrincheirados num universo sem nexo; doutrine-nos com a beleza da inutilidade!. São os dogmas em doses de cachaça que alentam minha alma. São tudoos paralelos e são tudoos ambíguos. Do pouco que descobri aqui, somente o que não sei parece ser a meu favor, cantariam elas, as moças de lábios beatos e vozes rasgantes, todas suicidadas mesmo se ainda vivas. Era uma verdade? Continuam pela externidade.

Escrevo mesmo mesmo por meu puritanismo soberbo, para poder sentir pena dos pequenos-infantes do orfanato ali ao lado. É tudo uma mentira umedecida com uma libido fantasiosa, o arrecada-almas de cada-dia, o excremento amargo que tu tiras do ânus e enfias pela boca sucessivamente. Disfarça melhor na próxima, porrinha de Deus! … “Oh, lies, lies, lies” … Mentir agora é o meu ofício. E o teu aval faz-se desnecessário.

Ab imo corde

Ab imo corde*

Tons incolores de cinza. A inexistência da coloração divergia da derradeira cor, a mais pungente delas. Delineando-se desde o seu princípio por uma base insolúvel, crescendo em desalinho até o ápice intragável. O cume era a cor que descolorava. Aquela que se mantinha imponente, subjugando aos seus cúmplices um emaranhado indizível de compreensões e emoções.

A menina… a menina prendia-se à paisagem num fiapo de real cor. Assistia-a entorpecido, enquanto seu coração, de um vermelho escarlate, fazia pulsar o efeito descolorante no cenário ao redor.

***

Com os últimos centavos que ganhara balançando ritmicamente em seu bolso, a menina caminhava pela rua de paralelepípedos, devaneando sobre a vã filosofia, que hora propunha-se a duvidar, hora afirmava sem hesitar.

A menina, ainda muito nova, dedicou-se aos estudos. Amava filosofia e literatura. Não que ela tivesse real intenção em se considerar a diferente em meio às outras pessoas da sua idade. Mas sair para brincar na rua, divertir-se com amigos e interagir com os outros de forma geral, invariavelmente faz com que alguns de nossos segredos sejam revelados, mesmo que involuntariamente, como seu pai gostava sempre de lembra-la. E ela não queria isso. Fechou-se para a vida, voltou-se para os estudos.

Mas não com tanta eficácia, pensava a menina enquanto continuava a fazer sua trajetória. Na escola, costumava excluir-se de grupinhos e observar os outros com atenção. Foi dessa forma que se deparou com outra menina que agia exatamente como ela. Tímida e quieta, evitava o contato com os outros e os observava, faminta por vivacidade. Trocaram olhares, mas não se assustaram de imediato. Foi só quando perscrutaram seus olhos reciprocamente que um súbito de compreensão tocou-as, irreverente.

Eram iguais. E souberam, naquele instante, a característica que as igualava. Não era a aparência, nem mesmo personalidade. A reação de reconhecimento fora inteiramente incomum, perceberam, mas contundente e irrevogável. No entanto, nunca tiveram coragem de conversar. Aquele olhar tinha sido o único contato que tiveram.

Mas agora a menina decidira. Caminhava para a escola e estava preparada para conversar com a outra. Com certeza, ela também se sentiria confortável com alguém igual. Afinal, aquilo as unia, quisessem ou não. E quem pensaria afinal que algo como aquilo provocaria alguma união agradável?

Chegou a sala, sentou-se em seu lugar e sorriu para a outra. O sorriso assustou a si própria. Há tempos não esboçava um sorriso. Parecia estar errado, desconcertado em seu rosto. Desaprendera a sorrir? Pensou que sim, mas não teve certeza.

No intervalo escolar, já havia decorado para onde a outra ia. Era sempre o mesmo lugar, propício para isolar-se. Correu à calçada da escola, onde o moço que vendia balões a gás hélio ficava, e gastou o resto do dinheiro que tinha comprando um balão. Escolheu um que tinha o formato de um coração, com delineação delicada, e era de um lindo vermelho. Considerou-o um bom presente.

Retornou para a escola e encaminhou-se para o esconderijo da outra. Ficou temerosa, mas seguiu. Já havia começado, que terminasse agora. Enquanto aproximava-se devagar, viu algo escrito numa das paredes desbotadas da escola, próximo ao lugar em que a outra estava. “There is always hope”. Num átimo de compreensões, tudo interligou-se em sua mente. O coração acelerou-se com a ansiedade e ela começou a tremer. Estava confiante; nunca se sentira assim. Até mensagens em inglês escritas anonimamente nas paredes pareciam confabular para o seu bem.

Alcançou seu alvo. Encontrava-se sentada no chão, encostada à parede da escola, comendo o seu lanche. Quando a sombra da menina se projetou sobre ela, a outra olhou para cima e sentiu-se extasiada.

– Oi – disse delicadamente a menina com o balão.

Sorriu novamente e pareceu mais confortável. Achou que se continuasse a praticar, logo poderia fazer como as crianças que gargalhavam estridentemente.

A outra menina fitava-a, indecisa.

– Não quer caminhar comigo? – Prosseguiu, o sorriso perdurado em seu rosto.

Olharam-se com mais intensidade. A menina estendeu a mão que segurava o lindo balão, oferecendo-o para a outra. Pareceu uma oferta cobiçável, a outra hesitou por alguns segundos e sua face expressou o desejo que sentia de levantar-se e conversar.

O desejo incontido, no entanto, não demorou a ser domado. Ela sabia no que isso daria. Seria errado e causaria prejuízos para as duas. Não, doeria, mas faria o correto. Levantou e fitou, pela última vez, os olhos da menina que pareceu o seu reflexo. Balançou a cabeça, negando o contato.

Um sonoro NÃO impronunciado – mas estava lá, estava sim – ecoou loucamente na mente da menina rejeitada. Ficou estática, enquanto a outra se afastava lentamente. Vultos irreconhecíveis passaram por sua mente, lembranças do seu pai fazendo as atrocidades com ela e o momento em que, num súbito de coragem, contara tudo para sua mãe, que depois de inicialmente desesperada, tornou-se enraivecida e mandara que a menina nunca mais voltasse a falar daquilo. A imaginação do que deveria acontecer com a outra também a invadiu, mas a curiosidade já tinha ido. Antes, pensara que aquele contato poderia ser sua salvação. Pensara que, de alguma forma, se as duas se tornassem amigas, poderiam ter uma ideia do que fazer.

Então lembrou-se da frase na parede e a achou ridícula. Devia ter sido uma pessoa iludida por uma utopia momentânea que a escrevera. Imbecil, imbecil. Qual a esperança? Talvez fosse a de encontrar alguém com quem partilhar sua dor, e nesse instante esperar que ela corresponda às suas expectativas. Mentira. Nunca corresponde. E nisso há reciprocidade. Você também não corresponde ao que o outro espera.

Sentiu tanto ódio da criatura que escrevera a frase que deixou escapar uma lágrima por seus olhos. Traída e enganada. Quando pensou que sua raiva não poderia mais aumentar, outra possibilidade passou por sua mente. Talvez a pessoa que escrevera a frase tivesse esquecido que a sentença deveria ser interrogativa, e não afirmativa. “Is there always hope?”. Esse é o tipo de regra que geralmente as pessoas esquecem. E o ponto de interrogação perdeu-se na parede com o tempo, com as coisas, com a vida. Não faz mal, pois a menina perdoou, do fundo do seu coração, a falha da criatura vândala.

Olhou para o céu nebuloso, que predizia uma chuva gélida. Uma radiação iridescente de luz solar ultrapassou as nuvens e refletiu, frágil, na face da menina, secando a única lágrima que escorreu. Levantou a mão e soltou o balão. Enquanto subia os seus primeiros centímetros no ar, em liberdade, a menina teve um vislumbre de si mesma. Estava tudo cinza, exceto o balão escarlate que a desamparou.

*Ab imo corde: do latim, “Do fundo do coração; sinceramente.”, segundo o site Dicionário de Latim.